segunda-feira, 27 de agosto de 2018

0036 - Os Futuros de Lisboa

Visitei este fim de semana uma exposição interessante (mas não brilhante) sob o tema dos futuros de Lisboa. Algumas coisas bem conseguidas, outras menos. Alguns textos interessantes outros de erudição pomposa. Um pouco de ficção e imaginação, fundadas nos actuais axiomas da sustentabilidade ,e  com um tempero, aqui e ali, de provocação, sobre o que poderá (poderia) ser Lisboa. Vale a pena um saltinho ao torreão poente do Terreiro do Paço. Ao Domigo de manhã é grátis até às 14H.





sexta-feira, 9 de março de 2018

0035 - Old Photos 2 - Os Iberos

Ando empenhado na interminável tarefa de digitalizar fotografias antigas. De quando em quando tenho esta vontade de partilhar. Vá lá saber-se porquê.

Esta é uma da minha carreira desportiva nessa grande equipa denominada Os Iberos. Guarda-redes intransponível (impressiva capacidade física, como se diria hoje). Nota para o dono da bola: o meu puto mais velho, hoje com 27 anos.



quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

0033 - Its the end of the world as we know it, and I fill fine (do I?)

Robot a fazer um mortal à rectaguarda 

Nunca como hoje fomos confrontados com a mutiplicidade de tempos. Em muitas partes do planeta vive-se e concebe-se o mundo de formas próximas da Pré-História; cosmologias animistas, enraízadas nos mais profundos tempos da humanidade, continuam activas, e alguns dos seus sintomas ainda podem ser encontrados nos mais modernos dos países. Por cá tratamos de assuntos mundanos da nossa vidinha colectiva e sectorial. Ao mesmo tempo, falam-nos no fim da humanidade e de uma pós-humanidade, com profeciais já para 2045. É já ali. Nada de muito novo. Ou será?
O fim da humanidade, como diz Jean-Gabriel Ganascia (2018), já não está ligado a uma guerra nuclear, a um qualquer meteorito, ao buraco de osono, aquecimento global ou outras variáveis climáticas, mas ao desenvolvimento a um ritmo exponencial da sua tecnologia.
Há dois anos um grupo de cientistas famosos, encabeçados por Stephen Hawking, reclamava urgência na moderação e controlo desta dinâmica, de crescimento exponencial (geométrico), anunciando o momento em que as máquinas, ganhando consciência e auto-controlo, criarão um momento histórico de Singularidade, o conceito emprestado das matemáticas para representar esse momento de ruptura. Já não é a gente da ficção científica e da literatura. É já a gente de vanguarda da ciência mundial a falar.
Nós, os que andamos entretidos com os problemas comuns, tendemos a continuar a olhar para isto com um sorriso, quase divertido, e prosseguimos.
Mas quando lemos que já existe, entre muitas outras coisas do género, uma coisa chamada “2045 Strategic Social Initiative”, financiada por um empreário russo, que está, repito está, a trabalhar no fabrico de avatares para receberem o descarregamento da mente humana, constituindo-se como veículos da consciência e personalidade de cada um, para-se para pensar e, diria, admirar e tremer.
A possibilidade da desmaterialização do humano está aí, fora da literatura e da imaginação. Durante milénios a cultura Ocidental criou uma dicotomia entre corpo e espírito. O corpo era apenas um recipiente habitado pelo verdadeiro eu, a alma. Foram precisos séculos de filosofia e alguma ciência para ultrapassar esta dicotomia e propor a dualidade e a interdependência, sempre retida por outras culturas não ocidentais.
Agora é a ciência, já não Ocidental mas global, a gerar uma nova visão dicotómica. A de que é possível essa separação; que a mente pode ser descarregada e libertada desse seu peso material que é o corpo, como que digitalizada e incorporada em suportes renováveis. É a nova promessa de imortalidade. Mas simultaneamente, uma promessa acompanhada de uma progressiva “cibernização” do humano, até a biologia ceder por completo à tecnologia. E há quem diga que já entrámos em estado de não retorno. Para outros, este é apenas mais um passo do evolucionismo, esgotado o papel reservado à humanidade na trajectória.
O livro de J.G. Ganascia é uma contestação a estas perspectivas alarmistas, mas fica claro que, para pessoas como eu, esta é uma questão essencialmente para assistir, com um misto de emoções.
Mas que me deixa deliciado com a relativização que obriga a fazer, sobre todos aqueles problemas que, quotidianamnete, nos deixam indignados e revoltados. 
De repente, fica-se sorridente parante a importância que devemos dedicar ao pormenor e a sua simultânea irrelevância.

Referência Bibliográfica

Jean-Gabriel Ganascia (2018), O mito da Singularidade. Devemos temer a inteligência artificial?, Círculo de Leitores, Lisboa.

domingo, 17 de dezembro de 2017

0032 - Memória externa... o frigorífico


As Ciências Cognitivas criaram o conceito de memória externa, prontamente aproveitado pela informática. A memória externa resulta na valorização do objecto, e de como nele se podem armazenar sentidos, que aí são inscritos pela mente humana (consciência que na Arqueologia, Ciência Social com grande relação com o objecto, se desenvolveu sobretudo a partir dos anos 80 do século passado), proporcionando-lhe uma espécie de extensão (um disco externo, na linguagem informática).

E fazemos isto todos os dias sem o pensar e questionar.

Quantas portas de frigoríficos se trasnformaram em memória externa, armazenadoras de experiências, vivências, enfim... memória. E há qualquer coisa de feliz coincidência entre um frigorífico e esta tarefa de memorizar: they freeze.

E é isso que faz, em grande medida, a memória: captura, individualiza e retira das sequências causais momentos, épocas, experiências, transformando-os em peças de lego individualizadas que utilizamos para construir a nossa percepção da nossa identidade. Em muitas casas, uma parte da forma como nos vemos está na porta do frigorífico. No meu também.


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

0031 - Cá vamos patrimonializando e rindo


É hoje banal, pelo menos entre certos círculos, reclamar contra as dicotomias, sublinhando que as oposições corpo/alma, sujeito/objecto, material/imaterial, ideia/matéria ou outras do género são teias de aranha herdadas do cartesianismo. A “dualidade” de Giddens foi-se impondo a uns, sendo que outros preferem falar de “relacionalidade” e outros ainda de holismo, onde toda a separação é apenas metódica. Alinho em todas estas perpectivas que visam superar visões dicotómicas do mundo e das coisas, menos naquelas que acham que, no mundo actual, não são elas que imperam na condução das coisas e nas decisões que lhes estão subjacentes. A dualidade da estrutura ainda é terreno do pensamento de uma minoria. A dicotomia perdura, resiste e domina. Descartes está bem vivo no senso comum e noutros.

Vem isto a propósito da dicotomia gerada pela institucionalização do conceito de Património Imaterial. A designação não me incomoda particularmente, porque nela percebo o sublinhar de uma, digamos, dimensão preponderante, mais intagível e, por isso mesmo, mais volúvel no tempo. Mas, no terreno do prático (que, ai, ai, não desconecto do teórico) o que acontece é que se tem vindo a subjugar a dimensão material à imaterial, assumindo, mesmo que incosncientemente, a dicotomia. Os reflexos disto nos processos de patrimonialização são óbvios (note-se que falo de patrimonialização, pois entendo o património como uma construção contingente, como um estatuto atribuído, como um toque de uma espada no ombro por reconhecimento de valor): é inegável que nas últimas décadas se tem patrimonializado mais com base no intangível e onde o tangível vai atrás (porque, lá está, não há dicotomia). É a actividade (e a sociologia que representa) que está no centro, e as materialidades o pretexto.

Relaciono esta tendência com a aceleração do tempo histórico e com o facto, de no tempo de vida humano, as coisas mudarem cada vez mais rapidamente, gerando sentimentos de perda, angústia, nostalgia face ao conhecido, valorizado, mas em processo de desaparecimento. A patrimonialização surge como uma espécie de boia de salvação das vivências, das experiências, dos ambientes, das coisas que nos povoam a memória e a vida, mas estão em risco. Tudo coisas próximas e que exercem sobre nós um efeito que as mais distantes já não  conseguem, sendo estas  remetidas, mais para o campo da curiosidade, do conhecimento e da racionalização, mas fora do âmbito das emoções e dos oportunismos políticos em que cada vez mais se desenvolve o processo de patrimonialização. E começa a confundir-se cada vez mais documento com património, vida com património, mudança com perda e morte. A passagem de uma visão cíclica do tempo e de um permanente retorno a um momento mítico original e fundador, que transpora consigo uma “ausência de mudança”, a um tempo linear e de inevitável transformação e esquecimento teria que gerar qualquer coisa como este problema identitário e psicológico que é a patrimonialização, esta tentativa de perpectuação, de suspensão do tempo.

Mas hoje, com a aceleração dessa mudança, a ruína distante ou mesmo o edifício mais monumental têm dificuldades em competrir pela atenção dos agentes patrimonializadores, até porque alguns desses elementos são economicamente e politicamente menos competitivos (levantam mais problemas e são menos “sexis” num ambiente cultural hedonista). E pouco importa que sejam mais representativos das dinâmicas e trajectórias da humanidade em determinados momentos da história e que o sejam a escala global, que estejam em maior risco ou simplesmente se encontrem a ser dizimados. São apenas materialidades, às quais, dicotomicamente, não se lhes reconhece a dimensão espiritual central nas trajectórias de se ser humano. Por descohecimento e ignorâcia, mas também por equívoco.

Mas, como dizia, o património é uma construção contingente. Pelo que aquilo a que assistimos é um excelente documento dos tempos que vivemos. Ainda vamos patrimonializar esta ânsia de patrimonialização, apenas não sei ainda muito bem que materialidades lhe estarão associadas.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

0030 - Contra corrente ou "Por esse rio acima"


Os Bonecos de Estremoz foram considerados património imaterial da humanidade. Bem, não terão sido exactamente os bonecos, pois esses são bem materiais, mas a actividade e a vivência ligadas à sua concepção e produção. Essas sim, mais imateriais. 
É mais um degrau dessa ânsia de patrimonialização de escala mundial que a vai progressivamente banalizando e desvalorizando. Não são os bonecos ou os chocalhos que estão em causa. Apenas a forma como se desgasta o conceito de “valor patrimonial de escala universal”. Quantos milhares de outras formas de fazer, que se materializam em objectos únicos, e que marcam tradições culturais locais e regionais estão a desaparecer e não são mais nem menos do que estas?
O que se está a passar com o desregrado processo de inflação de patrimonializações, que confunde local, regional, nacional, mundial, obedece mais à designada “networking” (vulgo candidatura bem montada), que a uma avaliação coenrente com a escala em causa.
Dir-me-ão: mas daí não vem grande mal ao mundo, nem ao património, antes pelo contrário, há qualquer coisa que passa a ser mais valorizada e conhecida, ganhando novo fôlego de vida. E até poderiam ter razão, não fosse o património um assunto de memória e o facto de a memória humana se parecer cada vez mais com um disco rígido.
Fiquei hoje a saber que todo este entusiasmo em torno aos bonecos de Estremoz fez com que no museu local, onde existia exposta uma colecção de arqueologia, a mesma tenha sido retirada, perante a invasão dos bonecos. E isto revela o que está realmente por trás de uma candidatura deste género: encontrar um “sound bite” patrimonial para ganhar destaque, sobressair, atrair visitantes, mesmo que isso seja à custa de encaixotar outros patrimónios, outras memórias, mais distantes e que aparentemente reflectem menos os sentimentos identitários presentes e, sobretudo, as angústias e as nostalgias que o acelerar dos tempos provocam com o desaparecimento de tradições que ainda nos são próximas e, naturalmente, estratégias políticas de escala pouco mundial.
Parece que a nossa memória é, de facto, tão limitada como a de um disco rígido, e que para armazenar algo novo e preservar qualquer coisa, temos que apagar algo mais antigo. Diria que o património arqueológico, enquanto materialidade de memórias mais distantes, está a sofrer desta reorientação para o intangível e mais próximo. Emocionalmente mais envolvidos com o que está mais próximo de nós e que morre aos poucos, não nos apercebermos que, na ânsia de preservar essa proximidade, vamos inadvertidamente apangando memórias mais antigas.
E enquando o país saúda mais um património local promovido a mundial, o Alentejo vai sendo surribado do seu património arqueológico milenar ou centenar, numa espécie de formatação do disco.

sábado, 11 de novembro de 2017

0029 - Mudanças


Ando a fazer umas mudanças em casa. O que implica mudar muitos livros. É nestas alturas que se toma consciência do que se foi acumulando ao longo dos anos de trabalho e investigação. Pequenas grandes bibliotecas, que pesam cada vez que nos metemos em mudanças. Coisa do passado, penso eu. Hoje, as bibliotecas estão sobretudo nos computadores (de quem lê, naturalmente). Mas não há nada como um livro com páginas que se possam sentir e folhear.

sábado, 28 de outubro de 2017

0028 -A day in a life

Em Santo André

Em Casas Velhas: necrópole da Idade do Bronze

Percebe-se porque lhe chamaram Anta da Pedra Branca

Numa barragem romana na Serra de Grândola

E revendo a Quinta do Anjo.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

0026 - A importância de um som e de um conjunto de caracteres.


O meu nome é António Carlos Neves de Valera. Quando era mais menino, trepava aos postes e o meu mundo de relações era restrito à família e amigos da família, a designação era Tony. Não confundir com Toni. Porque, nascido na velha Albion, foi de lá que veio o diminutivo (a pesar da inevitável adaptação à pronúncia portuguesa ter resultado num Toni).
Mas mal entrei na escola passei a ser o Valera ( e o Tony ficou para a família próxima). E fui Valera por aí a fora, entre colegas e entre as seguintes relações familiares. Toda a minha identidade e visão de mim se construiu em torno ao nome (escrito e pronunciado) Valera. Na escola, entre os amigos, na universidade, em toda a minha carreira como professor. Até ao fatídico dia em que fui trabalhar para a empresa onde trabalho há 20 anos (exactamente). Aí, não sei porquê (ou não querendo aprofundar o assunto), passei a ser tratado pelo meu nome próprio António. A coisa ao princípio foi estranha e complicada. Chamavam pelo ou falavam do António e eu não percebia que era comigo. E, quando me apercebia, a coisa não me era agradável. Apenas porque não me reconhecia no nome, no som,na grafia.
O tempo foi passando, e porque o ser humano é profundamente plástico, fui-me habituando. Hoje já não estranho. Pelo contrário, já me surpreendo quando alguém, que não dos círculos antigos, me nomeia por Valera. Mas cada vez que isso acontece, é como se renascesse. E hoje, tenho uma espécie de dupla identidade onomástica: António para uns Valera para outros (restando o Tony para a família). E isto organiza-se no tempo e no espaço.

Mas qual é o porquê  desta conversa hoje. Porque os meus filhos são hoje tratados por Valera. Porque hoje o mais velho faz anos e abro o Facebook e só vejo parabéns ao Valera. E fico nostálgico, mas simultaneamente feliz.

sábado, 30 de setembro de 2017

0025 - Por Torres Vedras...

... a aproveitar um dia bonito para revisitar uns sítios arqueológicos famosos, mas que estão um pouco entregues à sua sorte. Nem em tempo de autárquicas os poderes locais se interessam pelo património arqueológico...



sexta-feira, 29 de setembro de 2017

0024 - O Milagre de S. Francisco

Há uma imensidão de livros para ler que merecem ser lidos. Eles aumentam a um ritmo bem maior que a nossa esperança média de vida. Pelo que cada vez mais vamos ficando com a consciência de que tanta coisa notável que foi escrita nos passa, e vai continuar a passar, ao lado.
Este facto também nos faz perceber que, por isso mesmo, há cada vez mais trajectórias literárias diferentes e que com maior frequência nos diferenciamos por aquilo que lemos. Cada vez mais não lemos todos as mesmas coisas e, porque o que lemos participa na construção do que somos, esta situação contribui grandemente para a diversidade de trajectórias pessoais.
Acabei de ler agora O Milagre de S. Francisco, de J. Steinbeck, cuja primeira edição é de 1935. Vá lá, consegui lê-lo antes de completar um século de publicação. É uma delícia. Uma notável apropriação do ciclo arturiano para falar sobre o que Seintbeck sempre visou: a condição humana mais frágil, mas onde há uma "nobreza" própria em nada inferior.
Mas estas delícias começam a causar-me angústia. Angústia pelo que não vou conseguir ler e certamente teria gostado de ler., já para não falar no que isso teria feito de (ou por) mim.
Esta percepção de que a velocidade e diversidade de produção nos deixa cada vez mais ignorantes, vinculados aos espaços restritos em que nos conseguimos movimentar e minimamente controlar, tem contudo uma face boa. A de que o nosso horizonte de descoberta se alargou infinitamente. Hoje, só não descobre e cresce quem não quer.


domingo, 17 de setembro de 2017

0023 - 1965: identidades (Cartão de Identidade, não de sócio)



Quando tinha 3 anitos e me chamava "Antóbio"

Pertencemos a muitos grupos de identidade e a nossa identidade individual vai-se forjando nas interacções entre todas essas "identidades parciais", onde os adversários de umas são os colegas ou amigos em outras. E sempre em permanente dinâmica. Uma essência individual, diz-nos a ciência e a filosofia, é uma quimera. Somos simplesmente históricos, e em permanente construção. Paradoxalmente, a única coisa que em nós será permanente é a mudança. E, no entanto, há coisas que parecem não mudar. Umas poderão ser mais relevantes outras menos. Na construção identitária, porém, todas são cimento para a nossa ideia de nós.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

0022 - Lisboa escondida... e a cair aos bocados

Se para alguma coisa estas iniciativas como o festival Todos servem, e estou em crer que servem para várias, uma das mais interessantes é entrarem em edifícios e lugares de Lisboa que nos estão vedados no dia a dia. E possibilita-nos ver como patrimónios notáveis estão ao abandono. Sítios notáveis, com História e histórias, que poderiam ser aproveitados num sem número de possibilidades, mas que... adiante.

Neste Todos aproveitei e fui espreitar o ex-hospital Miguel Bondarda. Nunca lá tinha entrado e fiquei maravilhado e, simultaneamente, escandalizado.

O que mais impressiona é, naturalmente, o pavilhão da segurança. Um verdadeiro "shrine" circular, para conter aqueles considerados como os loucos mais perigosos. É impossível estar ali e não nos sentirmos inseguros e apreensivos. "Muralhas" para conter perigos no interior, protegendo o exterior, a fazer relembrar algumas interpretações sobre os monumentos tipo "henge" britânicos pré-históricos ou sobre outros "shrines" mais simples africanos. Uma forma de ver como ideias e percepções ancestrais (neste caso conter um mal enclausurado) se propagam no presente.




Arrepia estar lá dentro, mesmo num cenário preparado para uma festa, mas onde os vestígios de um passado dramático continuam presentes.





Mas este ainda é o sítio que se encontra melhor preservado. O resta revela abandono, como por exemplo um notável balneário comunitário, revestido a azulejo e com banheiras esculpidas em calcário e que se encontra neste estado, sob andaimes e telhado provisório de chapa.


Sobre o edifício principal apenas posso dizer que, mais uma vez, impressiona, com os quartos (também mais parecidos com celas) que ainda conservam colados nas paredes os nomes dos ali internados.

O espaço exterior é amplo, com áreas de jardim e grandes árvores.

Olha-se e sonha-se. Que notável espaço para uma universidade. Para uma residência de estudantes Para uma mistura disto com instalações turísticas. Para... para...

E não se entende uma situação destas. Ou melhor... entende-se... e fica-se deprimido com o entendimento.

domingo, 10 de setembro de 2017

0021 - O futuro da Arqueologia



O futuro da Arqueologia portuguesa joga-se em vários palcos, mas um dos mais relevantes é, naturalmete, o da formação, e, dentro desta, o palco universitário.

Saíram recentemente os resultados da primeira fase das candidaturas à Universidade onde, segundo se diz, mais alunos entraram.

Num rápido olhar sobre as principais instituições universitárias que apresentam cursos de arqueologia, o panorama é o seguinte:

U. Coimbra:  25 vagas - 25 entradas - nota mais baixa de entrada 11,6
U. Lisboa: 38 - 39 - 11,9
U. Évora: 20 - 20 - 12,1
U. Porto: 32 - 32 - 12,5
U. Nova de Lisboa: 30 - 30 - 12
U. Algarve: 25 - 14 - 10,2
U. Minho: 20 - 20 - 11,4

Resumindo, entraram em Arqueologia no total destas universidades 18 dezenas de alunos. Todas as universidades viram as suas vagas totalmente preenchidas, excepto a U. Lisboa, que ultrapassou (+1), e a U. Algarve que ficou com quase metade dos lugares por preencher, sendo também a que apresenta a nota mais baixa para o último aluno a entrar. E é neste ponto que surge a preocupação.

As notas mais baixas para todas estas universidades nos respectivos cursos de Arqueologia variam entre 10,2 (na UAlg) e 12,5 (na UPorto). Por outras palavras, pondendo existir alunos que escolheram Arqueologia com notas de entrada altas, o que estes números sugerem é que a maioria de alunos que entram em Arqueologia têm notas baixas. Já em tempos, num outro blog publicado em livro, referi este problema que Felipe Criado Boado chamou de "sedimentação" perigosa, pois progressivamente os alunos com menos competências (pelo menos as que podem ser expressas pelas notas de candidatura) vão-se acumulando em determinadas áreas científicas por não terem notas para entrarem noutras, com consequências óbvias para o futuro dessas mesmas áreas. E, pessoalmente, penso que há hoje muitos sinais deste processo de crescimento quantitativo sem correspondência de crescimento qualitativo em Arqueologia, já para não falar do elevado número de desistências.

O sistema reproduz esta desigualdade de partida a cada ano, a qual só poderá ser alterada se, no caso da Arqueologia, a disciplina conseguir atrair a atenção e o desejo de candidatos mais "competentes", tarefa na qual, obviamente, as Universidades não poderão estar sozinhas, pois o mundo do trabalho profissional tem muita responsabilidade nessa capacidade de atracção.

Uma outra possibilidade seria reduzir o número de cursos na globalidade, mas isso poderia trazer outros problemas à disciplina.

Um problema que não é fácil de resolver, mas que todos os que se dedicam à Arqueologia deveriam assumir como seu (não o deixando apenas para as Universidades), pois ele afecta a todos e à disciplina e profissão na sua capacidade de crescimento e relevância social.

sábado, 19 de agosto de 2017

0020 - Redescubra-se permanentemente a pólvora

Redescobrir a pólvora é o que acontece quando se diz que há que preservar o património, partilhar a investigação com o público, que o conhecimento científico visa tornar-se senso comum.

Mas, quando não se está numa excitada Primavera da vida, percebe-se que as “redescobertas” não são mais que a permanente necessidade de sublinhar os valores, as práticas, as políticas que se defendem, pois estas nunca estão garantidas para sempre… por mais que tenham sido anteriormente sublinhadas e praticadas.

Como disse alguém, coisas como os valores da Democracia nunca estão garantidos. Há que lutar por eles, apregoa-los, sempre que possível. Isto porque há nova gente todos os dias. Gente que não viveu o vivido e, por vezes, não tem a noção do que foi feito, num sentido ou noutro, e não se apercebe que não há conquistas garantidas. Claro que o que já foi escrito poderia elucidar. Mas para isso é preciso ler e saber.

Por exemplo, dizer que não se deve destruir vestígios que nos chegam de um passado mais ou menos distante e que são relevantes documentos da história comum, só pode ser uma banalidade. Uma redescoberta da pólvora. Mas é tão importante.

E mesmo assim não chega. E depois temos que ver notáveis pinturas neolíticas através de grades, para as protegerem de uns quantos imbecis que lhes escrevem ao lado os seus nomes (não da forma inconsciente da importância do ali pintado, como aconteceu com os que durante gerações gravaram ao lado de gravuras paleolíticas no Côa, mas de uma forma embrutecida que caracteriza quem vai ver património e o trata assim).


Mas estes não são os únicos. Há esses outros, que ainda não entenderam que há pólvoras que necessitam de permanente redescoberta, que nunca estão definitivamente descobertas. Por isso há toda uma tradição da investigação sociológica que resolveu começar a falar de “práticas sociais”, um permanente fazer e falar que possibilita a perpectuação do que se pretende perpectuar (ou quando muito o lento resultado da água em pedra dura). Apregoar a proteção do património, a sua divulgação e partilha com o público é uma delas. E todos os que partilham desse valor deverão fazê-lo. Sempre que possível. 

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

0019- Here comes the sun

A iniciar o restauro de um Sol neolítico, uma forma de ir simultaneamente pensando, também com as mãos, sobre um aspecto das iconografias do Neolítico Final / Calcolítico (atenção, que a ideia de que o resto do corpo não participa nas tarefas do pensar é puro equívoco).


Acompanhado por uma Guinness, naturalmente.

domingo, 6 de agosto de 2017

018 - Recordar a estética da abdicação

Hoje, por razões que não interessam para o efeito, lembrei-me da Estética da Abdicação de Bernardo Soares (Livro do Desassossego).

"Ao homem superiormente inteligente não resta hoje outro caminho que o da abdicação."

"Conformar-se é submeter-se e vencer é conformar-se, ser vencido. Por isso toda a vitória é uma grosseria.(...) Vence só quem nunca consegue. Só é forte quem desanima sempre. O melhor e o mais púrpura é abdicar."

Para a seguir se dizer:

"Agir, eis a inteligência verdadeira. Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for. O êxito está em ter êxito, e não em ter condições de êxito. Condições de palácio tem qualquer terra, mas onde está o palácio se o não fizerem ali?"

Mas logo acrescentar:

"O meu orgulho lapidado por cegos e a minha desilusão pisada por mendigos. Quero-te só para sonho."

E reconheço nesta estética um exemplo da insustentável leveza do ser num planeta com gravidade.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

017 - A minha primeira escavação

Foi há 35 anos: 1982, no dólmen de São Pedro de Dias, dirigida por J.C. Senna-Martinez.
Tinha acabado o primeiro ano do curso de História iniciado em 1981 e, durante o ano, havia sido "desviado" para a Arqueologia.


(O "exibicionista" não sou eu.)

As circunstâncias eram de grande voluntarismo e o espírito não se importava (até achava piada) com condições logísticas.


E o fogo veio (voltaria a vir em Setembro na minha segunda escavação).


O acampamento teve de ser levantado de urgência, a escavação ficou queimada e o meu ânimo pela Arqueologia pegou fogo. E apesar de algumas tentativas esforçadas para o apagar de quando em quando, e de momentos em que o combustível rareou, ele continua a arder.

De facto, há fogos que são difíceis de apagar.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

015 - Há 10 anos nos Perdigões


A minha vida estava a mudar pessoal e profissionalmente e nos Perdigões as escavações também. Iniciavam-se as campanhas de investigação no interior dos recintos e novas dinâmicas na organização do projecto global de investigação. Neste caso o sector I, onde se sondaram os fosso 3 e 4. Ainda participaram alguns amigos e colegas que, longe, continuam perto. Já os óculos escuros, graduados, foram fora. A idade não perdoa. Foi só uma década, mas parece muito mais. É a aceleração do tempo histórico, que ainda não  me decidi se nos deixa mais ricos ou mais pobres.

domingo, 16 de julho de 2017

014 - Cá dentro e lá fora


Há umas semanas atrás estive em Beja, a dar uma conferência sobre as principais novidades arqueológicas regionais relativas à Pré-História Recente, integrando um ciclo promovido pela Associação de Defesa do Património municipal, apoiado pelo projecto Outeiro do Circo e pela C.M. de Beja, onde estiveram pouco mais que duas dezenas de pessoas.

Daqui a um mês e meio estarei em Maastricht, numa sessão dedicada a debater a mobilidade humana na mesma Pré-História Recente, no âmbito do congresso anual da Associação Europeia de Arqueólogos.

Entre as duas participações há muitas diferenças. No âmbito, no público, no impacto, em escala, etc. Mas também homologias: no empenhamento, na seriedade e na importância a que ambas foi/será reconhecida.

Entre os deslumbramentos que os palcos internacionais podem causar e o desânimo que alguns dos nacionais incutem há que encontrar um equilíbrio que nos permita perceber que podemos funcionar a várias escalas e que, não infrequentemente, somos mais consequentes e relevantes nos segundos do que nos “festivais” em que se transformam muitos dos primeiros.

Por outras palavras, e na minha romântica maneira de ver estas coisas, a desejável (e necessária) internacionalização da Arqueologia portuguesa não pode (não deve) ser feita à custa do desinvestimento (pessoal) em prole da Arqueologia portuguesa. E isto nada tem a ver com escrever em Português ou Inglês. Mas sim com a maneira como cada um gere a disponibilidade, o investimento e a ambição pessoais. E com o espaço que nelas reserva, a um desígnio que seja, para a Arqueologia portuguesa.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

013 - Calor



Está muito calor. Um calor que cansa. Uma fadiga que se junta a outras fadigas que nos pesam e diminuem o prazer que temos no que nos dá prazer.

Anuncia-se, porém, uma descida das temperaturas.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

012 - Medina, a estrutura e a navegação de cabotagem


Hoje apanhei parte da declaração de candidatura de Fernando Medina à presidência da Câmara Municipal de Lisboa, lugar que ocupa por herança.
Estava ele, na altura em que liguei a TV, a começar a falar sobre um (dos muitos) problema da cidade: a entrada de 300 e tal mil veículos por dia. Como resposta estrutural, sublinho estrutural, Medina avançou com uma espécie de reforma dos transportes públicos (umas quantas ideias soltas sobre o estado dos ditos e o que deverão ser para resolver o problema).
A minha nota tem, contudo, a ver com a percepção de estrutura de Medina. Para ele resolver o problema estrutural da entrada de carros em Lisboa é conseguir que os "imigrantes quotidianos" venham de transportes públicos. Pois eu acho que uma abordagem bem mais estrutural ao problema seria evitar a "emigração" lisboeta, restituir parte à origem, reduzindo assim a "imigração" diária. E, já agora, combatia a actual perigosa aproximação à extinção do lisboeta em Lisboa.
É que a política camarária nos últimos anos ajudou a acentuar a já decana desertificação da cidade, não desenvolvendo políticas que incentivassem o arrendamento, promovendo a proliferação de hotéis, hospedarias, hosteis e outras modalidades de "host" (como a febre do ouro conhecida por Alojamento Local). Nas última décadas (com agravamento recente), a política camarária tem "salgado" Lisboa, nomeadamente o seu centro, transformando-a em terreno infértil  para residentes lisboetas e seus descendentes. Emigrados na periferia estes transformam-se em imigrantes diários que teimam em vir para a capital de automóvel. Shame on them.
E como vai acontecendo cada vez mais com as sardinhas, há cada vez menos lisboetas frescos.